terça-feira, 5 de janeiro de 2021

JOÃO CUTILEIRO • MEMÓRIAS DE PEDRA


 Acordei hoje a saber que o João Cutileiro morreu. Assim mesmo, cruamente. 
Morrer é desaparecer fisicamente. É não aparecer mais...

Não tivesse eu ido para o Museu Luís de Camões, e seguramente muitos dos grandes artistas portugueses me teriam passado ao lado. Mercê da Amizade criada com Arlete e Manuel de Brito, com Pedro Tamen, administrador da Gulbenkian, e o Arq. José Sommer Ribeiro, director do Centro de Arte Moderna, posso dizer que conheci os maiores artistas portugueses da segunda metade do século XX.


Corria o ano de 1988, governava Carlos Melancia, aquele que foi, sem dúvida, um dos mais cultos governadores de Macau, quando o Museu Luís de Camões, que então eu dirigia, organizava uma exposição de João Cutileiro, comissariada pelo Arq. José Sommer Ribeiro. 

O governador pediu que o avisasse quando as peças do Cutileiro chegassem ao Museu, tal era o seu interesse. 


À chegada, João Cutileiro, por detrás dos óculos redondos, olhava com ar penetrante para nós, procurando pontos fracos. Ao saber que minha Mulher era do Porto, fez-lhe uma provocação tão ao seu gosto mas que mereceu resposta à altura. Passados no seu exame, passámos, disse, “a ser dos meus”. Demos então início ao trabalho de montagem da exposição na que era a galeria mais importante de Macau, a Galeria do Leal Senado que eu dirigia (Câmara Municipal).


capa do catálogo de Macau de João Cutileiro


Carlos Melancia não se fez rogado e comprou algumas peças, e eu comprei uma menina. Mais gente terá comprado, nessa oportunidade única, embora nem todas as comunidades achassem graça às peças acabadas à máquina e à nudez feminina, coisa muito pouco habitual na China.

Eis aqui a transcrição do Prefácio do catálogo que escrevi na altura:


Esculpir é apenas remover a pedra que está a mais

 Michelangelo Buonarroti


“O século XX, herdeiro das contestações dos primeiros movimentos anti-académicos, vai-se desenrolando num crescendo de liberdade criativa e da consequente tolerância às libertinagens e transgressões do espírito.

É nesse contexto que vejo a obra de João Cutileiro. Irrequieta, irreverente, pujante, multi-facetada,

João Cutileiro transgride as “boas normas” da escultura, recusando-se a ser, ao mesmo tempo, escultor e canteiro, não fossem as “boas normas” a regra a transgredir para, conscientemente, se poder afirmar como escultor.

Cutileiro é um pioneiro na introdução da máquina no altar sacro da escultura, renovando com isso o próprio acto de esculpir, conferindo-lhe as características próprias das tecnologias do nosso século, e os seus naturais e consequentes merecimentos. Porque o processo criativo de um autor como João Cutileiro, e os seus inúmeros temas, se não compadece com a morosidade da cantaria, antes requerem um quase-imediatismo que ele sabiamente soube construir para si.

Este rompimento com o tradicional, torna João Cutileiro num inovador, como inovadoras são as suas obras, de um figurativismo personalizado, ora carregadas de uma ancestral sensualidade, ora de uma carga histórica fortíssimas, mas sempre eivadas de um cunho pessoal diferenciado.

Depois, a personalidade simultaneamente afectiva, atenta e irreverente de João Cutileiro, fazem dele um ponto polémico de convergência dos afectos. Amem-no ou detestem-no. Tal como à sua obra, que nunca é indiferente...”


Encimando uma cabeça de gesso da Revolução Cultural e uma dama Song (960 - 1279) 
a preciosidade de uma pesadíssima menina de Cutileiro.

Já não me recordo se antes ou posteriormente, o Centro Hospitalar Conde de S. Januário, encomendou a Cutileiro uma peça para a entrada. O escultor teve o cuidado de olhar para a medicina chinesa e perceber que quando uma senhora na velha China imperial queria apontar uma maleita, não indicava directamente no corpo. Antes usava uma boneca deitada para indicar a parte do corpo desconfortável. 


boneca em madeira usada em diagnóstico


A peça cujo tema estava ligado à medicina chinesa, foi colocada no átrio. Porém, depois, deixou de estar...


Mais tarde, sendo minha Mulher directora-adjunta e posteriormente da Comissão Instaladora do Centro Cultural de Macau, Cutileiro iria ainda enriquecer o conjunto com um enorme conjunto escultórico composto por um navio lançando jactos de água sobre cavaleiros que contra ele cavalgam eternizando o confronto com salpicos de água a refrescar a peleja.


instalação do grupo escultórico de João Cutileiro - os cavalos frente ao barco de pedra

o navio de pedra

O perpétuo confronto


Assim tem Macau um belo legado da obra do Mestre Português da Pedra. Só buscando conhecer bem a obra do Mestre que um dia nos recebeu em Évora, se poderá perceber como a beleza da pedra se eterniza. 

Quem disse que a pedra não vive?