quinta-feira, 23 de abril de 2020

PAZ EM TEMPO DE GUERRA – EDIÇÃO INTERNACIONAL DA REVISTA DE CULTURA 8 - 2003

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PORTO SEGURO - George Smirnoff

A exposição a que se refere o texto de introdução que escrevi em baixo, ocorreu em 2003. No site que criei, agora desactivado, escrito em inglês e, por isso, dirigido a um público mais vasto do que o de Macau e Portugal, deixou infelizmente de constar o conjunto de todas as obras expostas, propriedade do Museu Luís de Camões – por doação do Dr. Pedro José Lobo – e na altura desta exposição Comemorativa do Centenário de George Smirnoff  ligado ao site do Museu de Arte de Macau (MAM). Tal ausência/desaparecimento, constitui uma perplexidade, visto que sendo eu um particular, e o MAM uma instituição oficial, a obrigação da perpetuação deste tipo de informação não cabe senão às entidades oficiais. 
De qualquer modo, resolvi incluir aqui, o que escrevi para a Revista de Cultura, procurando assim aumentar a informação e o número de fotografias.



PORTO SEGURO

António Conceição Júnior
Comissário da Exposição


Apesar do perfil benevolente da cidade, Yuri deve ter contemplado com alguma ansiedade os montes, os fortes e igrejas que coroavam os pontos mais importantes de Macau. Yuri podia ver o barco a atravessar as águas lamacentas e pouco profundas, deixando à sua passagem um breve traço de espuma.

Dilacerado de novo entre a expectativa e uma imensa fadiga, os pensamentos de Yuri Vitalievitch devem ter incluído um certo sentido de desespero pela sua falta de documentos. Um homem pode ser privado de muitas coisas, mas ser privado da sua identidade deve ser algo de extremamente doloroso. A sua mente continha já demasiadas memórias desde que ele e sua mãe, Antonina Alexandrovna, haviam deixado a cidade natal de Vladivostok e mudado para a urbe chinesa de Harbin, onde Yuri conseguira não só tornar-se um notável estudante como formar-se em arquitectura, com distinção e medalha de ouro acrescentadas de uma bolsa para prosseguir os estudos nos Estados Unidos. 
1928  Finalistas do Instituto Politécnico de Harbin – Curso de Arquitectura
primeira fila, segundo a contar da esquerda.

Mas isto nunca chegara a verificar-se e, no entanto, no coração de Yuri, não havia mágoa. Até um certo ponto fora-se habituando inconscientemente à ideia de permanecer num local por um certo tempo que não era controlado por si mas pelo mutável curso dos acontecimentos.
Tinham sido forçados a sair da Rússia com advento da Revolução Bolchevique, que estava agora reforçada, e o Czar não era mais que uma recordação. Mesmo assim, dentro de si, a nostalgia dos anos de adolescência permanecia.
À medida que o barco passava em frente do porto principal da cidade, apontando para o porto interior onde finalmente terminaria a viagem, Yuri examinou a calma da cidade. As luzes começavam a brilhar enquanto o sol se afundava no horizonte e uma brisa suave trazia os sons distantes das gentes ocupadas com os seus afazeres. A sua curiosidade era temperada pelos cuidados e preocupações que consigo levava e pela memória, ainda viva, da sua recente prisão num campo japonês em Hong Kong. 
A vida de Yuri tinha sido a de um homem forçado a mudar de lugar para lugar.  

Durante a sua segunda estadia em Harbin, entre 1933 e 1935, Yuri tinha casado com Nina Ivanovna. Membros da comunidade de russos brancos, o casal tinha tido a sua primeira filha, Irina, em 1934. À medida que o barco se aproximava do cais, Yuri cingiu a pequena Irina ainda mais junto a si: pensava também na sua esposa Nina, na sua filha do meio, também chamada Nina, e no seu jovem filho Alexander, que ainda se encontravam em Hong Kong, aguardando que Yuri se estabelecesse.

 Yuri desembarcou finalmente em Macau, por entre estivadores que descarregavam toda a espécie de mercadoria e locais vindos para saudar os amigos que chegavam de Hong Kong. Nesse momento, estava longe de adivinhar que viria a tornar-se um importante cronista da vida de Macau, juntando-se a outros artistas que, antes dele, haviam pintado esta cidade única.
Ao longo do século XIX, Macau tinha sido retratada por numerosos artistas viajantes, na sua maior parte ocidentais que seguiam a tendência em voga da aventura no Oriente. Muitas vezes, o seu objectivo era a China, com Macau a servir de conveniente entreposto antes do destino final. Entre os mais notáveis estrangeiros que retrataram a cidade durante o século XIX contam-se Auguste Borget (1808-1877), George Chinnery (1774-1852) e Thomas Watson (1815-1860). 

A estes artistas (os dois últimos viveram, de facto, em Macau), é necessário acrescentar o artista chinês Kuan Lou Yuen, mais conhecido por Lam Qua, e também o artista macaense Marciano Baptista.
Nos dias que se seguiram à chegada de Yuri, este percebeu que as coisas eram difíceis em toda a parte. Devido à sua neutralidade, os japoneses não tinham invadido Macau, mas a fome tinha feito as suas vítimas. A cidade era uma imensa rede de pessoas, desde japoneses a oficiais americanos e britânicos, a refugiados de diferentes partes do mundo. Era um desconcertante refúgio e um local de tréguas entre inimigos (que frequentavam os mesmos clubes nocturnos sem muito embaraço).

Ao entrar em Macau, Yuri tomou o nome de George Smirnoff, um nome pelo qual se tornaria, mais tarde, conhecido em toda a cidade. George conseguiu encontrar alojamento no número 2 da Rua da Prata, mudando-se, posteriormente, para a Rua das Seis Casas. A casa, pouco mais que uma garagem, precisava de extensas obras. George Smirnoff conseguiu arranjar alguma madeira para reparar as janelas e adquiriu, também, alguma mobília básica.

Casa No. 2 da Rua da Prata

Os tempos eram muito difíceis, em especial para os refugiados. Por fim, a sua esposa Nina e as duas crianças mais novas conseguiram chegar, ao cabo de muitos trabalhos para conseguir bilhetes no barco de Macau. Conta-se que um certo milionário, um senhor La Salla, que talvez fosse o proprietário do barco, pagou pelos bilhetes em troca de receber mais tarde pinturas de George. A família demorou tempo a estabelecer-se, mas o instinto de sobrevivência levou George a procurar trabalho – tudo o que pudesse servir para sustentar a família.

À época, o Clube de Macau mantinha uma quase permanente venda dos artigos mais necessários, desde roupas a utensílios de cozinha e de sapatos a cigarros. A família conseguia também comprar pão na padaria do exército português do Quartel General de São Francisco. No entanto, as necessidades mais urgentes de George eram os materiais que lhe permitiriam pintar. Desde os seus dias de Harbin, George tinha estado envolvido em arte assim como em arquitectura. Desenhou o logotipo da universidade bem como os uniformes e, para além do seu trabalho em arquitectura, realizou algumas exposições de pintura. Mais tarde, executou cerca de 200 projectos arqutectónicos em Tsingtao (sobretudo casas de Verão para abastados homens de negócios de Xangai). Para além das suas actividades nestes campos, George Smirnoff tinha ainda um especial interesse noutro género de projectos, tal como o desenho de cenários para teatro.
George Smirnoff trabalhou, também, para a Hong Kong Engineeering and Construction Company Ltd em Macau, como relata Ricardo Luís Duarte Pages de Noronha que trabalhou para essa companhia. Porém, a pintura a óleo permaneceu sempre como a paixão principal de George.

Nesse tempo, os artistas não abundavam na cidade e, para sobreviver, George ensinou pintura às senhoras de Macau. Talvez tenha sido através delas que George começou a desenhar cenários para as produções teatrais do Teatro Dom Pedro V. Estes espectáculos constituíam uma forma de diversão bem vinda pela população de Macau, ávida de encontrar formas de sobreviver mentalmente aos efeitos da guerra.

A participação de George nesses eventos artísticos deve ter trazido o seu nome à atenção do Dr. Pedro José Lobo, um milionário local, líder da comunidade portuguesa, e grande mecenas das artes. Pedro Lobo era proprietário de uma estação de rádio, a Rádio Vila Verde, e era ele próprio compositor e patrocinador do Círculo de Cultura Musical de Macau para além de proprietário da companhia de abastecimento de água de Macau, a SAAM. Foi como resultado da intervenção deste homem, que tinha sido o presidente do município de Macau e mais tarde se tornaria director dos serviços de economia, que George Smirnoff recebeu encomendas para pintar as várias perspectivas e aspectos de Macau.

É aqui que os trabalhos agora expostos começam a ganhar forma. Os materiais de pintura não eram fáceis de obter, e o papel não era um bem abundante. Apesar disso, estas encomendas levariam George Smirnoff a prosseguir a exploração da cidade e a desenhar. Em muitas ocasiões, era acompanhado por um dos seus filhos, que estudavam no colégio de Santa Rosa de Lima, e rodeado, certamente, por uma multidão de curiosos.

Permanece um mistério a razão pela qual as aguarelas de George Smirnoff retratam sobretudo o lado europeu da cidade. No entanto, existem várias explicações possíveis. Em primeiro lugar, ao contrário de Auguste Borget, George Chinnery e de todos os seus predecessores, George Smirnoff tinha vivido anteriormente em Harbin e Tsingtao, logo, os aspectos chineses da vida em Macau não constituíam novidade para si. Em segundo lugar, e talvez a razão determinante, porque esse seria um requisito específico da encomenda. Porém, não se sabe se Smirnoff chegou a falar pessoalmente com o Dr. Pedro Lobo ou se a encomenda foi feita por carta ou por outro meio. Por fim, enquanto arquitecto, George Smirnoff sentia-se atraído pela arquitectura de inspiração ocidental que fazia, e faz, de Macau um lugar único.

Os seus desenhos eram inquestionavelmente precisos e, provavelmente, a sua formação de arquitecto contribuía para essa precisão. Todavia, observando as suas aguarelas, podemos ver como o pintor que nele havia se revela.
Estes trabalhos soberbos reflectem claramente a atmosfera de Macau nessa época. A maioria das obras possuí uma atmosfera límpida e soalheira. Por exemplo, o rico ocre amarelo utilizado para retratar a Igreja de São Domingos, assim como as duas pinturas de Smirnoff no Colégio Mateus Ricci.

Igreja de S.Domingos

A versatilidade de George Smirnoff com a aguarela é evidente nas diferentes condições de luz mostradas nos seus trabalhos. Assim, as suas pinturas do monte da Penha ( peças 11 e 12) apresentam quase a mesma vista mais com diferenças na luz e no pormenor. Para o público, será não só importante admirar esta colecção como apreciar a mutação de ambientes de Macau mostradas nestas pinturas. Cada aguarela reflecte o momento do dia em que foi pintada e, sem dúvida, a emoção interior do artista.

Poente e ermida da Penha

Penha e árvores florindo

Para além desta importante encomenda do Dr. Pedro José Lobo, George Smirnoff prosseguiu também com as suas próprias pinturas. Frequentemente, pintava enquanto ensinava os seus alunos o que, muitas vezes, acontecia ao ar livre. Um dos seus alunos mais atentos e talentosos era um adolescente macaense chamado Luís Demée, que mais tarde deixaria Macau para estudar arte em Portugal e tornar-se, a seu tempo, o mais importante pintor nascido em Macau no século XX. As obras de George Smirnoff, juntamente com as dos seus estudantes, foram mostradas ao público de Macau numa exposição realizada no Colégio de São Luiz entre 20 e 23 de Dezembro de 1944.

Mais tarde, Luís Demée descreveria George Smirnoff como "um homem culto, exigente mas amável, de acentuados traços russos, alto e de cabelo louro e que sofria muito com o clima quente e húmido de Macau. Usava sempre calções e sandálias e transportava consigo a caixa de aguarelas, pincéis chineses e uma pequena cadeira de armar. Percorria com frequência a cidade, a pé, em busca de locais para pintar, fossem estes ruas ou paisagens".

O padre Albert Cooney, um jesuíta irlandês e amigo próximo de Smirnoff, assegurou que o pintor desse  aulas de arte e participasse em actividades extra curriculares, tais como a produção de peças teatrais com os alunos. George tinha também uma relação de amizade com Jack Braga, a quem enviou duas aguarelas e uma carta desejando um bom ano novo.

A interacção de George com a comunidade local era mais vasta. Iniciou uma colaboração com o jornal católico O Clarim, para o qual desenhou uma magnífica nova imagem de título, tal como testemunha uma carta de agradecimento do chefe de redacção.


Smirnoff manteve as suas ligações com o cônsul britânico, Sr. John P. Reeves, que aumentou a ajuda do Foreign Office e do Colonial Office atribuída a mais de 9.000 refugiados de Hong Kong em Macau. É muito provável que George Smirnoff também tenha ensinado pintura às filhas do cônsul.

Com o fim da guerra, os refugiados, incluindo George, regressaram a Hong Kong. Jack Braga organizou um Comité de Reabilitação onde, nas suas notas pessoais, George Smirnoff é referido como Assistente, Serviços Técnicos, Engenheiro Civil e Arquitecto. O regresso a Cameron Road, Hong Kong, constituiu de novo um recomeço para George e para a sua família. Não havia electricidade, a água era racionada e os bombardeamentos tinham danificado os edíficios. Em Novembro de 1945, George escreveu a Jack Braga explicando, em pormenor, a sua situação. Reproduzimos aqui essa carta porque ela exemplifica as suas emoções, esperanças, frustrações e sentimentos por Macau.

Ironicamente, foi em plena guerra que George Smirnoff encontrou, na tradicionalmente generosa cidade de Macau, um porto seguro e pacífico. Macau ofereceu-lhe um ambiente de trabalho adequado graças ao qual mostrou os locais mais relevantes da cidade assim como outros recantos de carácter mais romântico. São estas pinturas que, agora, fazem parte da galeria daqueles que, durante o século XX, retrataram a vida da cidade.

A maior parte das aguarelas expostas provêm da colecção de originais do Museu, que foram entregues, em 1945, à Secção Artística e Etnográfica do Museu Comercial e Etnográfico de Macau (que a partir de 1960 passou a ser designado por Museu Luís de Camões).

Algumas outras aguarelas, e pinturas a óleo, foram generosamente emprestadas pela família de Smirnoff ao Museu Luís de Camões em 1985, quando foi exibida a primeira exposição temporária da obra de George Smirnoff, integrada nas comemorações do 25º Aniversário do Museu.

Neste momento, em comemoração do centenário do nascimento de George Smirnoff em Vladivostok, a mesma generosa cidade de Macau relembra o artista, que a mostrou no seu modo único duas décadas antes da cidade começar a evoluir e a mudar para sempre.

terça-feira, 21 de abril de 2020

CINZAS DO PARAÍSO


As volutas de fumo que um cigarro queimando origina, pouco diferem das que nascem de uma vela soprada, ou do pau de incenso ardendo em honra de deuses que, silenciosos, vão observando a transmutação da matéria em imatéria.

Por isso o fogo é sagrado. Porque, sendo imaterial, se faz sentir em todo o seu como que ardor, por todos os lugares por onde passa, transformando a dimensão das coisas que incandesce.

Observo melhor o cigarro fumegando no cinzeiro, a cinza crescendo lenta e inexorável, o amortalhado tabaco consumindo-se, tabaco e mortalha fenecendo, depois de por eles passar o brilho vermelho-laranja do morrão, ardente caminho, compasso de tempo lançando agoras em cinzas fumegantes de ontems rapidamente arrefecidos. Assisto então ao avançar do vermelho-laranja. Avanço ou recuo? Avança mais que recua, para a sua própria extinção. A brasa encontra agora um pedaço mais forte de tabaco que lhe faz frente, para em breve, com um estalido quase inaudível, incandescer também, e com ele a mortalha, já mais avançada na queima, como que deixando nua aquela retardatária brasa, a cinza a aumentar, o fumo subindo ininterrupto. Ponho-lhe o entrave de um dedo, contorna-o na sua ascensão inexorável, olho o ponto onde a colunazinha de fumo se dissolve no ar, ainda a minha vista alcança, bem longe do tecto. Volto a descer os olhos, percorrendo lento esse caudal que despeja para cima, à maneira dos deuses, o fumo em torrentes de silêncio branco, semelhando um fio de lã igualmente branco, sem som. Será este fumo o anúncio de uma nuvem? Quem dera que fosse e que acreditássemos também que as nuvens, tal como a neve, são feitas de algodão onde nos poisamos, suspensos, para algum repouso da realidade.

Já o cigarro vai quase a meio sem que ninguém lhe toque, nem eu, que o não acendi. Observo-lhe a cinza a acumular-se, memória do que foi, nota-se ainda o vinco da colagem da mortalha, e a coluna de fumo continuando imperturbável a precipitar-se para cima, à maneira dos deuses, ao seu encontro, insensível às corridas dos humanos, às suas metamorfoses e às surpresas que se pregam a si mesmos na fugaz vontade da vã glória de serem mais que o que já eram, agora que o vento sopra noutro sentido e a imagem renasce simétrica, esperada ou inesperadamente.

Imaterial o fumo - assim como o fogo que o gera - desfeito ao sopro de uma aragem, como uma esperança qualquer, ou o momento de uma notícia, substituída logo a seguir, outra lhe sucedendo, tempo sobre tempo, tudo fugaz e efémero.

A coluna de cinza tremeu, o morrão ultrapassou a metade do cigarro, a qualquer momento se desvanecerá o equilíbrio instável desse fóssil de cinzas, ainda preso ao que foi, o fumo sempre ascendendo em torrente, agora como que mais forte, à medida que se aproxima do fim.

Nada mudou, nada mudará na história da humanidade senão os homens, eles mesmos, tão diferentemente iguais, repetindo incessantemente a sua própria história, como se outra fosse.

E porque a gravidade é uma força, eis que, com um estremeção, a coluna de cinza cai, partida junto ao morrão e se precipita, sem pressas, como que a desfrutar os seus momentos de última integridade, antes de cair e se estilhaçar no fundo do cinzeiro. Bastou que a primeira viga caísse para que todo o edifício ruísse, paredes, vigas e sobrados, andar precipitando-se sobre andar, umbrais e ferros retorcendo-se, esmagando-se violentamente contra o solo - gente entalada no meio de tudo aquilo – num mar imenso de poeira e detritos, como que fumo, novamente subindo aos céus, enquanto a térrea poeira se espraia por todo o lado da catástrofe que não conhece nomes nem rostos nem tempos.

No cinzeiro, o morrão fina-se devagar, já sem nada de si próprio para se consumir, consumatum est. Pelo chão, destroços de todo o tipo se espalham, incontáveis, inenarráveis, sanguinolentos. E por um instante, apenas por um instante, a humanidade interrompe o seu afã e ouve a notícia, enquanto no local, gente que segundos atrás urdia a próxima jogada ou despreocupadamente conversava sobre um terceiro, descobre-se a esgravatar nos destroços em busca de vida, gritando pelo seu semelhante.

Lá no alto, onde os deuses recebiam colunas de fumo caíndo para cima em catadupas, olhavam-se sabendo de antemão o que todos pensavam:

Era preciso que o inferno se abatesse para que os homens percebessem o princípio do Paraíso.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

O NOME DO SANTO NOME


Todas as coisas querem nome, de todas uma inominável, apenas duas se não explicam. Deus e o da Cidade do seu nome santo. Cidade nomeada, explicada em étimos de ilusão erudita, venha a deusa A-Ma e com Deus converse, os dois sorrindo da verdade dos homens, quantificadas em métricas de razão equívoca, história prolongada dos tempos da Babel, fabulosa origem dos desencontros.

Esteve a verdade sempre tão à tona, mas não a direi, porque o pouco que sei aprendi, e cada um que aprenda, aprende-se não se ensina, encontre-se na perdição das fábulas da vida e distinga-se delas o joio do trigo. Coma o homem pão de joio antes de provar o trigo, saiba encontrar a ordem natural das coisas, todo o caos é ordem e o inverso também, equívocos não.

Pela memória das ruas antigas povoadas de deuses mascarados de homens anónimos, quanto mais humildes mais deuses, salpicam o caminho altares tão humildes que mais valera serem baixares, tão próxima é a natureza dos manes ocultos pelo fumegar do incenso, deuses olhando deuses, fantasmas cheirando a poéticas de nostalgias diferentes, sons inaudíveis musicando o compasso do tempo dos pregões. De que terra és tu que não falas à minha, o meu pregão é outro, não compro nem tampouco vendo, apenas olho entre o belo e o horrendo, e assisto da janela dos nomes à procissão do tempo deslizando pela cidade, dois préstitos e um caminho, todos passando, obra de deuses para quem todos os becos são saídas de onde remanesce a fragrância indescritível de odores que dão à alma o que o corpo precisa, não há nariz ou palavra que descreva, apenas se suspeita ou adivinha.

Também António de Lisboa, Pádua e Macau é nome de santo, em tempos de desespero lembrado e lá vai mais um ai meu Deus e, quando passa, lá ficaram Deus e o santo para os outros que a vida continua e o resto pode esperar.

Transforma-se a cidade na cadência do minuto, mas não o dia hoje como ontem igual, apenas nós diferentes, uns para igual outros crescendo, cada um em si mandando, alguns obedecendo, futuro não é do que se constrói, antes daquele que dispõe o que o homem põe, seja ovo seja calhau, diga-se assim e já não é mau.

Tem a escrita a cidade que suscita, lugar ritmado de cidadania, utopia que não é mania, apenas matéria concreta do amanhã. Mas quem saberá senão nós, que esta história antiga de que não falo, é fio retalhado, nodulado, amarrado, sugado e consentido, abandonado e pressentido, dorido e ressentido, a factura está pronta, alguém terá de ficar, ficam os homens, e os últimos que paguem a conta.

Não vai ninguém abaixo, homens são como árvores, morrem de pé à maneira de Goya, perdoe-se aos crucificadores que cravos não ferem alma que não tem corpo, apenas corpo tem alma, e firam mais que por cada cravo cravado dez se irão cravar, assim diz Alá e não sei se existe, heterónimo dos deuses todos, um só da eternidade vindo, cada um crê no que quer. Incrédulo é o que vê, sem se chamar Tomé, a história que corre.

Quisesse o homem ser fraterno e encontraria o irmão, que mando e poder são inverdades patenteadas, ontem disse, hoje não disse ontem. Mais fácil é julgar que amar, que julguem e odeiem, dói o ódio a quem odeia, perdido entre ser anás ou caifás, venha o diabo e escolha. Não te distraio que estás distraído, como se fosses o centro de um quadrado.

Quadrado é raíz de cidade, módulo de passados antepassados, cidade velha, cidade nova, mas que é isto de arqueologia, a tua voz é de cá? Apenas existo vivendo, fingindo que escrevo escrevendo, escrevo assim e depois? Não me sabes ler assim ou queres que seja outro? Sou eu apenas, mero grão de arrozal, não enche o papo a galinha assim, cada grão outro e não felizmente igual, como cidadãos em dias de festa.

Festas de faço minha cidade, pena que sejam festas contadas, contas breves de dias, fossem festa os anos e não dias, e talvez um querubim viesse e mudasse o tempo, e desse aos homens a suprema esperança do desafectado afecto, e estes à natureza se dessem, e transformasse por ordem do Supremo, que de onde está em lugar que não é, em tudo e todos mandando segundo a lei de Moisés, Buda e Pessoa, sabendo construír os dias em noites de vigília, porque já tudo está escrito muito antes de ser dito e nada se apaga , analfabetos somos da eternidade, desencontrados na festa, perdidos da fraternidade, mando de Deus e da sua natureza.

Fraternidade, afectos apressadamente suprimidos em lugar interior, trocados pelo fácies social, pacto, tacto, olfacto, contacto, não me toques nem aqui nem ali, nem hoje nem ontem, amanhã não estou. Sou contrato de trato maltrato e… como está, contente-se e é muito. Não sabe o homem que hoje é já seu passado e outro dia se passará, rosário finito de diversas finitudes. Olhe-se o compósito propósito de restar o que resta. Só eu sei o que presta, hã? que dizes ó ponto, fala alto! um momento. Não ouço, estão-me a ouvir, repete depressa, onde foste ponto? ah que te pesponto!

Máscaras e biombos, teatros de vidas consabidas na monotonia de uma pobre nota que não é sol, quando muito ré fingindo de lá para aqui.

De novo se foram o santo, o dia e a festa, e uma solidão tremenda paira sobre os homens, esvaziados de cheios de nada, clepsidra quase vazia, fumegando memórias e aromas de ópio e de fantasmas de homens e mulheres daqui contemplando tudo na sua translucência sem tempo, equador às voltas no eixo, as horas a dar e a cobrar. Dobra-se também o fazedor de dobragens que sempre há montanha maior, e todas as verdades já eram mentiras antes de serem novas verdades.

Olhe-se para dentro, onde reside o divino espezinhado, enclausurado e amordaçado, e invoquemos o santo nome do Nome, e, se tempo tiver que tem, mesmo de longe e de toda a parte, perdoar e abençoar os nossos atalhos de barro e, com a vontade de um pensamento, transformar de novo o barro em homens.